sexta-feira, 18 de maio de 2012

(Des)Carta


Julieta,

Quando desistimos daquela parada de fugir, forjar morte e tudo mais, pensei que as coisas seriam fáceis.
Achei que seus pais parariam de frescura por causa do meu sobrenome e que mamãe acabaria te aceitando como nora; que seria divertido dividirmos o teto e a cama e que mesmo nossa pouca idade não seria empecilho.
No começo, tudo foram flores... Você tinha uns quilos a menos e eu, umas horas a mais com os amigos.
O problema é que poucos meses depois, as coisas mudaram... Calcinhas no box do banheiro e ciúme de algum comentário que façam no Facebook, eu até aguento. Mas tem mais Jú, muito mais.
Não posso atrasar vinte minutos que você começa a ligar desesperadamente, sua comida é horrível, sua carência é assustadora e até o sexo tá perdendo a graça.
Ainda te amo, mas preciso de um tempo.

PS: Deixei a roupa suja no cesto. Venho buscar qualquer hora dessas.
Se precisar, mande um e-mail. Vou ficar hospedado na casa de um amigo.

Beijo,
Romeu.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Curta Cotidiano #8


_Como assim? É claro que eu te amo! Você vem logo depois do meu trabalho, amigos e família.

_Pelo menos ganho do cachorro.

_Puts! Esqueci do cachorro!

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Não é Amor


A gente tem mania de maldizer o amor sem sequer conhecê-lo.
Flerte que não dá certo, paixão que frustra, fogo de palha. E quem paga o pato? O amor. O pobre do amor, que nem entrou na história.
Façamo-nos um favor: deixemos que o amor apareça quando bem entender. Aproveitemos o flerte, a paixão, o fogo de palha.
O amor é seletivo. A maioria de nós, não.


Se dói, é unha encravada, ego ferido, cólica ou gastrite.
Releve. O amor é leve. 

terça-feira, 17 de abril de 2012

(es)crê(ver)




As pessoas vivem avisando que histórias devem ser escritas a lápis, mas sempre teimo. Gasto papel, tempo e tinta de caneta. Borro tudo. Amasso a folha, acumulo uma pilha de páginas que não deram certo.

Quando pequena, tive uma daquelas cartilhas Caminho Suave, aulas de caligrafia e uma professora que cobrava letra redondinha, parágrafo e travessão.

Adoro ver a caneta dançando sobre o papel e quando escrevo a mão, sinto as palavras mais minhas.

Meu único defeito é ignorar o lápis. Não senhor! Quero uma esferográfica vermelha para o título e outra azul para o corpo do texto. Se errar, rabisco um traço e começo tudo outra vez. Sem corretivo, que não admito meus escritos sob disfarce.

Foi essa teimosia que rendeu tantas folhas arrancadas, tantas páginas na lixeira.

Já escrevia sobre você, mas não conseguia me fazer entender. Como uma criança que confunde as letras e não entende porque sorriso não é com z.

Acertei a mão quando te encontrei. Escrevi nossa história em letras graúdas e você grifou as palavras chave, ilustrando os trechos principais.

Com você não dá para apagar – muito menos jogar fora. Com você deu certo (e nem precisei passar a limpo).

sexta-feira, 30 de março de 2012

Curta Cotidiano #7


‎_Você tem bom gosto? 

_Tenho.

_Posso lamber para comprovar?

terça-feira, 20 de março de 2012

Curta Cotidiano #6

Campanha por um mundo com menos literalidade.
Participe!


_Quer comprar meu livro?

_Quanto custa?

_Dez reais... O preço de dois sorvetes.

_Ih! Desculpe, estou de dieta. Além disso, hoje não é um bom dia para tomar sorvete.

segunda-feira, 19 de março de 2012

(Lou)Cura



Às vezes quero te dizer milhares de coisas e ao mesmo tempo, não quero dizer nada. Posso começar contando do azulzinho do céu que vejo da minha janela todas as manhãs, passar pelo menino que cata latinhas na rua, comentar o que comi no café e terminar nas minhas insatisfações que não sei de onde vem e me incomodam feito etiqueta pinicando.

Eu não quero dizer nada porque tenho ímpetos de te matar de vez em quando. Não literalmente, só aqui dentro.

Bebo litros d’água durante o dia e me imagino em noitadas boêmias, enchendo a cara de álcool e te afogando bem aqui no meu peito. Você nadando apressadamente, desesperado, o álcool subindo e meu coração sucumbindo enquanto gargalho com o copo na mão: Eu vou te matar!

Às vezes quero te dizer que odeio o que a sua falta me causa e acabo optando por não dizer nada, porque você vai rir ou desdenhar, sem entender como pode doer tanto uma saudade de apenas dois dias.

Eu não quero dizer nada porque tenho vontade de rasgar todas as suas roupas e depois jogá-las pela janela. Tenho vontade de me atirar também. Não literalmente, só atirar do oitavo andar a bobinha que ri sozinha quando é surpreendida pelas suas lembranças. Ela caindo e eu assistindo de camarote, satisfeita: Cai, tolinha!

Eu quero te dizer um milhão de coisas que você ainda não sabe – ou talvez saiba, mas não sob a minha ótica.

E é tanto querer, é tanto a dizer, é tanto, tanto, tanto... Que eu fico assim, desesperada, com mil pássaros batendo as asas dentro da minha barriga e cem aranhas tecendo teias na minha cabeça.

Eu nunca senti isso antes e essa porra de sentimento descomunal oscila mais que a minha fé na humanidade. Fé cega, lâmina pra lá de afiada.

No fim das contas, não te afogo e tampouco me atiro pela janela.

Senta aqui. Às vezes quero te dizer milhares de coisas...